Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma.
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar.
O resto...Sim o resto
parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei nas ruas
como qualquer pessoa.
Olhei para as montras
despreocupadamente
E não encontrei amigos
com quem falar.
Tão triste que me pareceu
que me seria impossivel
Viver amanhã,
não porque morresse
ou me matasse,
Mas porque seria impossivel
viver amanhã e mais nada.
Fumo, sonho,
recostado na poltrona.
Dói-me viver
como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas
lá para o sul das cousas
Onde sofrer seja
uma cousa mais suave.
Onde viver custe
menos ao pensamento,
E onde a gente possa
fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar
em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês
ou da semana que é hoje.
Abrigo no peito,
como a um inimigo
que temo ofender,
Um coração
exageradamente espontâneo
Que sente
tudo o que eu sonho
como se fosse real,
Que bate com o pé
a melodia das canções
que o meu pensamento canta.
Canções tristes,
como as ruas estreitas
quando chove.
terça-feira, 22 de abril de 2008
Álvaro de Campos
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