quarta-feira, 23 de abril de 2008

Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.

Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fôra surda,
Te ouvisse todo com o coração.

Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas [...]
...Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas -
Quando é amar que deves. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,

Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fôsse
Alguém pra te falar de quem tu amas.

Quando te vi amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fôsse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.

E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma 'strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é tôda humana.

Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
-Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo dêste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda
ao ponto de o sentir...?

Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.


Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer


Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!


Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!


Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro,
faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gnomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível
faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo
gostar bem de ir vendo tudo,
E eu gosto tanto dela
que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a
e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo,
não sei o que é feito
do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força
que me abandona.
Toda a realidade
olha para mim como um girassol
com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

terça-feira, 22 de abril de 2008

Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir

Fernando Pessoa

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma.
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar.
O resto...Sim o resto
parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas
como qualquer pessoa.
Olhei para as montras
despreocupadamente
E não encontrei amigos
com quem falar.
Tão triste que me pareceu
que me seria impossivel
Viver amanhã,
não porque morresse
ou me matasse,
Mas porque seria impossivel
viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho,
recostado na poltrona.
Dói-me viver
como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas
lá para o sul das cousas
Onde sofrer seja
uma cousa mais suave.
Onde viver custe
menos ao pensamento,
E onde a gente possa
fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar
em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês
ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito,
como a um inimigo
que temo ofender,
Um coração
exageradamente espontâneo
Que sente
tudo o que eu sonho
como se fosse real,
Que bate com o pé
a melodia das canções
que o meu pensamento canta.
Canções tristes,
como as ruas estreitas
quando chove.


Álvaro de Campos

domingo, 13 de abril de 2008

PRECE

Senhor, a noite veio
e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta
e a vontade !
Restam-nos hoje,
no silêncio hostil,
O mar universal
e a saudade.

Mas a chamma,
que a vida em nós creou,
Se ainda há vida
ainda não é finda.
O frio morto
em cinzas a ocultou:
A mão do vento
pode ergue-la ainda.

Dá o sopro, a aragem,
- ou desgraça ou ancia -
Com que a chamma
do esforço se remoça,
E outra vez
conquistemos a Distância
Do mar ou outra,
mas que seja nossa!

Fenrnando Pessoa